Som e Fúria

Som e Fúria. 12 episódios (36' cada). Com Felipe Camargo, Andrea Beltrão, Pedro Paulo Rangel, Cecília Homem de Mello, Dan Stulbach. Direção geral: Fernando Meirelles. Box com 3 dvds tá em média R$39,90.

Nós crescemos acostumados a dizer que Globo só produz porcaria, mas isso não é uma verdade completa: vez por outra, ela aposta em um programa mais sofisticado, principalmente em minisséries, mas que fracassam justamente porque são inteligentes demais para um público que a emissora se dedicou, dia e noite, a tornar idiota.

Na metade de 2009, a Globo colocou no ar Som e Fúria, adaptação de Fernando Meirelles para a série canadense Slings and Arrows. A série foi lançada em dvd agora em janeiro, com todos os 12 episódios e cenas adicionais (já que o futebol comia 15 minutos na quarta-feira), e eu não hesitaria um segundo em dizer que, ao lado de Hoje é dia de Maria, foi a melhor coisa que a emissora pôs no ar nessa década.

A história se concentra nos bastidores da companhia de teatro municipal de São Paulo, às voltas com a temporada de peças clássicas. Quando o diretor da companhia, Oliveira (Pedro Paulo Rangel), morre atropelado por um caminhão de presunto, Dante (Felipe Camargo) é convidado para substituir o antigo amigo, com quem não falava a anos, desde que teve um surto durante uma montagem de Hamlet. Com orçamento apertado, pressões da secretária, um ator de novela no papel principal e sua antiga paixão no elenco, Dante precisa montar novamente Hamlet. E, para complicar, conviver com o fantasma de Oliveira, que volta do além para dar seus palpites na peça.

Eu não assisti a série canadense, mas não acho difícil que a adaptação do Meirelles tenha melhorado o texto original: mais do que traduzir as falas, a contextualização para o cenário brasileiro é inteligente, por encarar a situação do teatro no Brasil com honestidade: um lazer voltado quase sempre para elite, que exclui as classes mais baixas tanto pelos ingressos caros como pela intelectualidade das produções. A proposta da série, contudo, fica além de uma demagogia barata de “vamos voltar o teatro para o povão”, já que a atitude de Dante não é de simplificar o teatro, mas de incentivar seu poder de causar sensações no espectador, mesmo com um texto difícil como o de Shakespeare. O que a série também faz muito bem, com a figura do diretor afetado Oswald Thomas, é tirar um sarro do teatro pretensioso e metido a vanguardista, que só ajuda a levar adiante a imagem de que o teatro é uma arte complicada e nada acessível.

E se metade da qualidade da série vem do texto ágil e inteligente, a outra vem das atuações: o fantasma de Pedro Paulo Rangel é ótimo, aproveitando de todo cinismo que a morte podia lhe dar; Dan Stulbach faz um tipo inseguro de dar pena, enquanto Cecília Homem de Melo, a “carregadora de piano” do teatro, estréia na tv e rouba a cena quando aparece. Por fim, a Helen, de Andréa Beltrão, consegue ser detestável e adorável ao mesmo tempo, atravessando uma crise de perspectiva na sua carreira. As outras participações especiais (Daniel de Oliveira, Paulo Betti, Rodrigo Santoro, Débora Falabella) são a cereja do bolo.

E agora eu preciso cometer uma contravenção matemática e dizer que há uma terceira metade crucial para Som e Fúria, e ela atende pelo nome de Felipe Camargo: de vida pessoal tumultuada (briga pela guarda dos filhos, envolvimento com drogas) e com papéis minúsculos em novelas há anos, ele se confunde com o personagem, um ator de talento que se afunda por problemas pessoais. Apesar desse peso todo, a loucura e a angústia da personagem ficam leves graças aos tiques e as “maluquices” que ele faz justamente para “bancar” o louco para seus colegas. É uma redenção muito bem vinda.

Há uma cena, nos capítulos iniciais, em que Oswald Thomas diz que sente pena do teatro, que consegue perder em espectadores até para o rádio. O que Som e Fúria parece tentar fazer é justamente a recuperação do teatro, apontando que alguns excessos precisam ser cortados e que nunca deve-se deixar de lado aquela coisa que Aristóteles tinha afirmado lá atrás, sobre a capacidade do drama em fazer a gente lidar melhor como nossos sentimentos. De quebra, a série não só te faz querer ir ao teatro, como ser do teatro. Obrigado, Globo, por se redimir, pelo menos um pouquinho, com a cultura.

Uma última coisa: provavelmente por questões de direito autoral, todas as músicas do Secos e Molhados, que encaixaram bem na série, foram retiradas do dvd, o que é uma pena.

2 comentários:

guilherme disse...

Excelente post.

Acredito que existe muita coisa boa na TV nacional que infelizmente não recebe a atenção devida.

Infelizmente as emissoras abertas estão muito engessadas e não existe ainda uma emissora que trabalhe bem esse público que migrou para os canais a cabo, infelizmente.

Dito isso não achei som e Fúria tão bom assim, por mais que o trabalho seja "redondo" é perceptível a adaptação e o formato canadense na obra. Uma série de qualidade, mas num nível diferente de Capitu por exemplo, que achei bem superior e original.

Vinício dos Santos disse...

eu acho que o som e fúria é um pouquinho mais fraco na segunda parte mesmo.

e eu não vi o capitu, mas só ouvi elogio sobre ele até hoje.