Crácicos do Cinema #7 - Meu primeiro amor

My girl (1991). Dir: Howard Zieff. Com Jamie Lee Curtis, Dan Arkroyd, McCauly Culkin (antes de ele começar a salvar sua cada de bandidos) e Anna Chlumsky (que virou uma tia bem bonita, procurem no google).

Meu primeiro amor é um título mal escolhido para o original My girl. Primeiro, porque obrigou a distribuidora, aqui no Brasil, a lançar a continuação como Meu primeiro amor 2, um exemplo intrincado de paradoxo sentimental (i.e. uma grande burrice). Depois – e muito mais importante – porque deixa de lado toda a ambição temática do filme para tentar vende-lo como um melodrama de paixão infantil.

Para quem não conhece a história – porque eu fiquei sabendo que existem religiões que proíbem que os seguidores assistam a Sessão da Tarde – Vada Sultenfuss, uma menina de 11 anos, precoce e tagarela, mora com o pai, dono de uma funerária em casa, e com a avó catatônica. Sem atenção de ninguém, ela passa suas férias brincando com Thomas J, um menino bobão alérgico a tudo. Quando Shelly, a nova maquiadora da funerária, se envolve com seu pai, Vada é empurrada para um mundo para o qual ainda não está pronta.

Como eu estava dizendo, a escolha do título em português serviu para que, na nossa memória, o filme ficasse marcado pelo motivo errado: Meu primeiro amor não é, afinal de contas, um filme sobre o primeiro amor de Vada, mas sim uma daquelas histórias que a gente conhece como romance de formação, e a história e até bastante didática para trabalhar com isso.

No filme, dois grandes assuntos funcionam como a porta de saída da infância: a morte e o sexo. O fato do pai de Vada ser dono de uma funerária não facilita em nada o contato com a morte, que permanece como um tabu, estrategicamente colocado no porão da casa. Porém, quando Shelly entra para a história, Vada se vê diante da sexualidade do pai de volta, até então um cara que vivia para seu trabalho – e desse ponto em diante, as duas forças começam a afetar a garota diretamente, passando pela sua primeira menstruação, sua curiosidade em saber como seria beijar outra pessoa e culminando com a perda do primeiro ente querido, o próprio Thomas J.

O único amor que Vada tem, no filme, é a paixão platônica pelo seu professor de redação, e todos nós conseguimos lembrar como era isso: um sentimento que não precisava – e nem considerava – ser traduzido em ações. Quando Vada vê seu pai junto com Shelly, ela começa a descobrir as formas que o amor toma, e Thomas J. se mostra um candidato ideal para um teste, pela cumplicidade. Ele não é o primeiro amor de Vada, é a primeira tentativa de amor dela – e o título em inglês, Minha menina, não é só enfeite para combinar com a música do The Temptations, mas a declaração principal do filme: Vada precisa deixar de ser uma menina simplesmente em oposição ao meninos, para começar a ostentar sua feminilidade.

O filme tem uns defeitos: a trilha é meio besta, as cenas, às vezes, são um pouquinho descosturadas e a transformação de Vada, no final, fica um pouco artificial, porque força a barra para que ela “cresça” a partir de tudo o que aconteceu, superando o trauma da morte de Thomas J. como se não fosse tão importante. No fundo, fica parecendo que o filme se esforça para ser mais fácil do que é de verdade.

Sensível e complexo – e com direito a uma dose de humor negro – Meu primeiro amor é um filme que merece uma revisita, de olho naquilo que a gente deixou escapar da primeira vez.


Esse post foi uma sugestão da Nathy, que disse que Meu primeiro amor é o filme preferido dela (ou algo assim). Se você tem uma sugestão para a seção, contribua para o blog e escreva lá nos comentários (porque eu mesmo já estou sem idéias, rs).

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4 comentários:

Nathy disse...

Ótimo!!! Que bom que acatou minha sugestão. Gostei da sua resenha e do seu olhar para o filme. Muito bom o post.

Vanishing in the air disse...

Adorei o post. Muitas vezes, a gente ataca os filmes vespertinos da Globo, ams nem sequer os entende. Não tinha visto meu primeiro amor sob essa ótica... muito interessante!

Não é um clássico, mas era meu filme favorito, na minha infância tardia e gostaria que você comentasse: Mulan! XD!

Ah sim! Também tem "o rei leão"...

André Modesto disse...

Bonita resenha! deu até vontade de pegar o filme em VHS, na locadora!

Cristine disse...

Muito bacana as análises que você fez. Eu não me lembro da trilha, mas adoro a musica do Temptations.
Para mim esse filme é uma graça, e eu nem sei bem porquê. Vejo mesmo como mais um filme sobre os ritos de passagem, tipo o Stand by me. Você achou o Um dia a casa cai? Esse é um dos meus preferidos da sessão da tarde!