Onde vivem os monstros

Where the wild things are (2009). Dir: Spike Jonze. Com Max Records, James Gandolfini, Paul Dano, Catherine O'hara, Chris Cooper. 101min.

A cabeça de uma criança é um negócio assustadoramente complexo, se a gente considerar que, com uma quantidade limitada de experiência e conhecimento de mundo, elas precisam se virar para elaborar conceitos e se encaixar em um ambiente dominado por adultos. É mais ou menos como se você conhecesse, no máximo, 100 palavras de uma língua e fosse forçado a se mudar para outro país.

Em Onde vivem os monstros, Max é um menino cheio de criatividade que passa pela fase difícil de manter a atenção da mãe e da irmã. Em um dia particularmente ruim, ele acaba fugindo e vai parar em uma ilha repleta de grandes criaturas peludas.



A ilha é o lugar da manifestação de todo o imaginário infantil, mas a diferença fundamental é que lá Max não vai apenas entrar em contato com sua imaginação fantástica, mas com a sua própria visão do mundo: o comportamento dos monstros e as brincadeiras entre eles refletem a forma simples e particularmente ingênua que ele tem para lidar com problemas; há um momento particularmente genial, quando um dos monstros explica ao menino que a sensação que possuía era a mesma de quando um dente estava para cair. Só mesmo uma criança, cuja queda dos dentes é um evento tão importante, traçaria um paralelo desse tipo para explicar sua própria ansiedade.

Ao se proclamar “rei” da ilha, Max dá início a seu próprio processo de amadurecimento – e os conflitos que ele tem com os monstros são simulações do que já acontece na sua vida. Assim, apesar de toda a esfera de imaginação, Onde vivem os monstros é um filme essencialmente melancólico, com grandes chances de arrancar umas lágrimas com a conclusão, que funciona bem no contexto do filme e para qualquer um que já passou por algum momento de crescimento inevitável.

O próprio diretor Spike Jonze afirmou que Onde vivem os monstros é um filme sobre a infância, e não para crianças, o que fica bastante claro pela carga de metáfora e simbolismo que cada um dos monstros traz. Não é um filme muito fácil, mas com a atenção certa, oferece um belo mergulho para dentro de uma cabeça que, um dia, já foi a nossa.


Um comentário:

Nathy disse...

Cadê "Clássicos do cinema - Meu primeiro amor"? Estou esperando! rs