BROWN, Dan. O símbolo perdido

(The Lost Symbol, 2009, Editora Sextante, 512 páginas; preço médio de R$35,00)

Em O sexto sentido, quando o Bruce Willis descobre que estava morto o tempo todo, o espectador fica tão chocado quanto ele, porque a revelação acontece tanto para o personagem quanto para o público, e isso é um requisito básico para tramas de mistério. Aparentemente, Dan Brown é um autor que ou não conhece esse truque ou sabe que ele não serve para seus propósitos de fazer livros arrastados de 500 páginas.

O símbolo perdido é a nova aventura do simbologista Robert Langdon. Na trama, ele viaja repentinamente para Washington, onde precisará desvendar um mistério que envolve a maçonaria e outros grandes segredos para salvar seu amigo Peter Solomon. Para quem detesta o escritor desde a polêmica que criou com O Código da Vinci, não se preocupem: ele dá um jeito de falar sobre a Bíblia nesse livro também.


Meu problema com Dan Brown não tem a ver com o conteúdo dos seus livros, que chamaram atenção pelas afirmações “bombásticas” religiosas de Código da Vinci, levando a Igreja a propor boicote ao livro e várias pessoas a saírem dizendo por aí que Jesus tinha um caso um Maria Madalena. A ficção tem o direito privilegiado de relatar o que quiser, justamente porque se presta a inventar. Se Dan Brown quer contar uma história que envolve os monumentos de Washington, lendas maçônicas e um saber antigo secreto, ele tem todo direito de fazer isso, seja uma verdade factual ou não. A parte que diz respeito à literatura, porém, é como ele conta isso – e aqui surge meu problema com ele.

Entre os autores de best-sellers dos últimos anos, Dan Brown é, fácil, mais medíocre de todos eles. Sua fórmula para sustentar mistérios e manter o leitor no escuro se esforça em ser esfarrapa: todos os personagens detêm alguma informação importante, mas preferem se manter em silêncio até que seja conveniente para o andamento da trama que ela seja revelada. Para complicar, numa tentativa barata de atiçar o leitor, Brown frequentemente introduz pequenos pensamentos dos personagens, como “Hoje é a noite em que eu vou encontrar aquele objeto de que preciso”, ou seja, um fragmento descontextualizado que só faz sentido para a cabeça do personagem.

Além disso, em O Símbolo perdido, Brown resolveu adotar pontos de vista múltiplos para descrever certos eventos, o que apenas serve para que uma passagem sem explicação seja seguida pela mesma passagem, narrada pelos olhos de outro personagem, com as peças faltando. O resultado de todas estas técnicas é um só: esticar o livro o máximo possível, entulhando páginas e mais páginas para disfarçar a fragilidade da trama.

Os personagens também não ajudam o livro a ficar interessante, já que tem a mesma profundidade de uma piscina infantil: o protagonista Robert Langdon tem a função exclusiva de servir como uma enciclopédia para a história, expondo um punhado de dados históricos para desvendar seus mistérios, agindo com uma burrice espantável às vezes. Enquanto isso, os outros personagens se limitam a reciclar os tipos que já estavam em Código da Vinci e Anjos e Demônios: há o policial durão, o maníaco-fanático-religioso-exótico que opera o plano, mais um mentor de Langdon, o interesse romântico que também fica recitando referências históricas sempre que fala etc. Nem mesmo os enigmas são interessantes, já que todos se baseiam em informações históricas obscuras, o que enfraquece a veracidade que Dan Brown tanto gosta de alardear.

Não bastasse ser uma narrativa pífia, O Símbolo perdido ainda consegue ter um final anti-climático, trazendo uma revelação totalmente incoerente com a trama, que só funciona porque Dan Brown, aparentemente, se “esquece” de contar alguns detalhes. Para piorar, o trecho que se dedica ao maior dos mistérios, o tal conhecimento antigo protegido pela maçonaria, não só mostra, sem querer, que todo o perrengue de Langdon naquela noite foi inútil, como tenta fazer uma espécie de mea-culpa do autor para os ataques de religiosos que ele sofreu por causa de Código da Vinci.

Depois de 488 páginas, é até fácil entender porque Dan Brown vende tanto: mais do que os mistérios polêmicos que ele se esforça em fazer parecer verdade, a estrutura dos livros é concebida para que o leitor entenda cada linha do que está escrito, com direito a repetições constrangedoras de informações para que ninguém se perca - as pessoas gostam daquilo que entendem, e nem sempre isso coincide com aquilo que é bom. Infelizmente, a mediocridade do Dan Brown está em plena sintonia com o que as pessoas conseguem entender hoje.

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