Crácicos do Cinema #5 - Curtindo a vida adoidado


Ferris Bueller's day off (1986). Dir: Jonathan Hughes. Com Matthew Broderick, Alan Ruck, Mia Sara, Jeffrey Jones e Ben Stein (aquele professor que fica dizendo: "anyone? anyone?"). 103min.

Existe um diálogo entre a Sloane e o Cameron, na metade do Curtindo a vida adoidado, que não só resume o filme como também toda a geração pós-década de 80. Ele é mais ou menos assim:

CAMERON: Eu não sei o que eu quero fazer.
SLOANE: Vá para faculdade.
CAMERON: Para fazer o quê?
SLOANE: Você tem interesse no quê?
CAMERON: Em nada.
SLOANE: Eu também.

Na possibilidade de que o blog seja visitado por pessoas recém-saídas do coma de 20 anos, aí vai um resumo da história: Ferris Bueller (Matthew Broderick), para matar aula, inventa para os pais que está doente e precisa ficar em casa. Assim que está sozinho, ele convence seu amigo hipocondríaco Cameron a aproveitar o dia com ele, passando no colégio para apanhar Sloane, a namorada. Enquanto Ferris se diverte na cidade, o diretor da escola tira o dia para provar que ele não está doente, o que inclui até mesmo uma invasão de domicílio.



Curtindo a vida adoidado não é só uma comédia despretensiosa, mas irresponsável. Todas as artimanhas de Ferris dão certo, ele jamais é punido e prevalece sempre sua figura de cara legal com qualquer um que cruza seu caminho. Ferris é o ideal de diversão ser remorso, que vive em férias eternas.

É neste sentido que o diálogo que eu citei no começo é tão emblemático: a geração de Ferris (de alguma maneira, a nossa), é a primeira que não vai formar adultos, mas crianças crescidas, que vai viver tentando resolver suas obrigações o mais rápido que der para poder fazer o que realmente gosta. Ainda que essa comparação não seja muito sólida, Curtindo a vida adoidado está para os anos 80 como A primeira noite de um homem está para os anos 60. No filme do Dustin Hoffman, havia um sujeito formado que não tinha muita certeza do que fazer com a sua vida. Ferris já está perdido e desestimulado antes da faculdade, que para ele e seus amigos é um caminho sem volta rumo à vida adulta.

É engraçado como o título em português consegue simbolizar o filme melhor do que o original (O dia de folga de Ferris Bueller). Qualquer atividade voluntária é boa para Ferris, que consegue se divertir tanto cantando "Twist and shout" numa parada como visitando um museu – e aí o filme vira, sem querer, um manifesto contra as obrigações, e é por isso que gostamos tanto dele.

Mais do que um clássico dublado da Sessão da Tarde, Curtindo a vida adoidado é um marco para juventude – e Ferris Bueller é o cara que nós todos queríamos ser, pelo menos por um dia.

(o DVD do filme vive em promoção, vem com bastante material extra e ainda com a dublagem original)


2 comentários:

Arthur Malaspina disse...

Putz... esse filme não envelheceu um dia!!!

FODA!

van-jeff disse...

ô Xurupita...seguinte...outro dia assisti ao Ferréz falando o seguinte: "...nós somos o que fazemos nas horas vagas(intervalos), se vc só joga video-game sua vida é isso, se vc vê pornografia sua vida...se vc joga futebol sua vida(...)o que fazemos no cotidiano não representa o que somos(...)eu, por exemplo, quando trabalhava numa padaria lia nas horas vagas...hoje sou escritor".

talvez faça um pouco de sentido com o que vc escreveu aí embaixo:

"É neste sentido que o diálogo que eu citei no começo é tão emblemático: a geração de Ferris (de alguma maneira, a nossa), é a primeira que não vai formar adultos, mas crianças crescidas, que vai viver tentando resolver suas obrigações o mais rápido que der para poder fazer o que realmente gosta."

Abraço verde!