Turma da Mônica e a criança segundo Maurício de Sousa

Besta dizer que as artes costumam ser um retrato do seu tempo. O que não é muito comum é considerar quadrinhos como arte e, mais adiante, tratar com seriedade da Turma da Mônica, que embora seja admirada por qualquer um com bom senso, nunca é vista como nada além de entretenimento saudável e divertido. Porém, depois de quinze anos lendo as revistas da Turma, eu acho que consegui juntar informação o bastante para contar o que eu vi de sério na forma como Maurício de Sousa cuida dos seus personagens.

O Cascão, por exemplo, sempre foi o mais pobre da Turma. Lembro bem de uma história em que todo mundo saía de férias, menos ele, porque o pai precisava fazer hora-extra para pagar as contas. A falta de dinheiro, porém, nunca foi empecilho para que o Cascão se divertisse – e aqui aparece uma das principais crenças do Maurício de Sousa: de que criança precisa de criatividade e liberdade, não de brinquedos. Mais de uma vez, nas histórias do fim dos anos 80/começo dos anos 90, encontrei histórias em que o Cascão se divertia empurrando pneus ou brincando com recortes – e dando lições para o Cebolinha não reclamar que o pai não podia comprar o brinquedo que ele queria.



Nos últimos anos, os problemas financeiros da família do Cascão foram deixados de lado, sobrando mesmo só a criatividade. Por outro lado, as revistas começaram a abordar outros problemas da vida familiar, como é o caso dos pais separados do Xaveco. Embora as histórias não sejam lá muito engraçadas, elas sempre mostram um pai completamente atrapalhado tentando agradar o filho – e, coincidência ou não, o Xaveco é o atual riquinho da turma, que mora na casa com piscina e que tem o videogame de última geração, uma espécie de compensação bastante comum em divórcios. No fundo, por mais cômico que tentem pintar o pai do Xaveco, a mensagem é de aquilo não está certo, e que toda criança deveria mesmo era ter um pai e uma mãe em casa.

Os três personagens mais recentes – Luca, que anda numa cadeira de rodas, Dorinha, que é cega, e Bloguinho, o apaixonado por computadores – mostram duas facetas bem interessantes. A primeira é a da não-exclusão do diferente: Luca e Dorinha participam de qualquer brincadeira, e é curioso notar como a cadeira de rodas do Luca não é um entrave, mas um elemento a mais, enquanto a cegueira da Dorinha jamais é tratada como um tabu: numa piada hilária, o Cascão tenta dar um bode para ela afirmando que é um unicórnio.


Por outro lado, o Bloguinho, a cada quadro, reafirma a opinião do Maurício de que criança precisa brincar na rua, e que essa geração está sendo destruída pela tecnologia. Bloguinho é quase sempre retratado como um idiota que não sabe nada do mundo porque passa seus dias pendurado na internet – e então Maurício deixa claro que nós só conhecemos o mundo através do mundo, sem nenhum intermediário, o que não deixa de ecoar aquela história clássica do Piteco, “As sombras da vida”, que diálogo com Platão.

Com 50 anos de carreira, Maurício de Sousa não abriu mão do seu conceito de criança até hoje.

2 comentários:

Stella disse...

palmas!
ele merece!;)

ila fox disse...

Criança é criança em todos os tempos.