8 clichês infalíveis em programas de auditório

Programa de auditório é tudo igual: você precisa de um apresentador – e ele pode ser de qualquer jeito, gordo ou magro ou mãe de um filho do Mick Jagger – um cenário – que contém um logotipo do programa, quase sempre em powerpoint – e uma platéia – que o Silvio Santos, por exemplo, chama de “colegas de trabalho”, embora eu não ache que nenhuma moça ali também seja uma multimilionário da comunicação.

Depois de arranjar tudo isso, você já pode começar a rodar seu programa ao vivo e buscar aquele toque que irá ganhar o telespectador, o que nunca vira nada, porque entra ano e sai ano, sai a moça que cantava músicas dos dedinhos e entra a que tem as pernas compridas, e os programas de auditório continuam com os 8 clichês infalíveis abaixo.

8. Declarações vazias de participantes de quadros
Naqueles programas constrangedores de namoro na TV, o apresentador pergunta “que tipo de música você gosta?”, e o rapaz de 22 anos, que diz que trabalha numa empresa de transportes de valores (ou seja, ele é motoboy) responde “ah, eu curto de tudo, samba, rock, axé, sertanejo, funk, eu sou um cara bem eclético”. Ser eclético é a expressão que inventaram para dizer “minha personalidade é tão desenvolvida quanto a carreira da Mari Alexandre”.

O que eu queria ouvir um dia: “Que tipo de música você gosta?” “Olha, no momento eu venho apreciando a fase barroca do Chopin, apesar de achar que alguns maneirisimos dele são exagerados, certo mano, acho que você me entende”.


7. Movimentos bisonhos de câmera em números musicais
Aparentemente, manter a câmera sobre o pedestal e variar os ângulos é uma coisa muito sem graça na televisão, o que levou os programas de auditório a abordagens ousadas com câmeras que passeiam pelo número musical, como se o cameraman estivesse tendo um ataque epilético. Isso sem contar a filmagem dos grupos de axé, que começam com o vocalista e vão se aproximando sorrateiras da bunda da Scheila Carvalho, culminando naquele close que você só encontra em Ginecologia II no Curso de Medicina.



O que eu queria ver um dia: eu queria ver uma lei federal que dissesse assim “bandas com mais de três pessoas só poderão se apresentar se todos estiverem tocando algum instrumento”. Com uma tacada só, eu tirava todo o axé, o funk e o pagode da televisão.


6. Onda decrescente de beleza na platéia
Podem checar sem medo: a primeira fileira é de modelos que vêem de saia e ficam com suas pernocas cruzadas o programa todo. A segunda é de modelos que não conseguiram um lugar na primeira fileira, a terceira e a quarta são de pessoas comuns e da quinta para trás se concentram as caravanas de Belford Roxo e Franco da Rocha, que antigamente até levavam aquelas faixas “Faustão, Turma da Dona Jussiara no Domingão: Carla, Renata, Juana, Renato Boy e Amendoim”.

O que eu queria ver um dia: que fizessem a escalação ao contrário, e a Carla, a Renata e a Juana ficassem ameaçando invadir o palco para jogar sua carta de 40 metros com “Eu te amo” para o Daniel.


5. Ligações telefônicas que demoram um minuto para se estabilizar
Programa ao vivo deve dar mesmo um trabalho enorme de se fazer, mas isso não impede que os produtores insistam em chamadas ao vivo para a casa do Amado Batista a fim de realizar um desejo da Stephany do Cross Fox, entre outros exemplos. Então acontece sempre a mesma coisa “Alô, Amado? Amado Batista, você está me ouvindo? Estamos tentando contato com Amado Batista, que a Stephany disse que é o grande ídolo dela. Mais uma tentativa, alô Amado? Caiu a linha, caiu?” até que alguém responde “Gugu? Alô Gugu?” e eles ficam nisso até dar um minuto.

O que eu ainda queria ver: alguém dizer uma bobagem na hora errada, como “cacete, mas esse viadinho do Gugu fala muito baixo no telefone”.


4. Jurados sem critérios ou com critérios sem sentido
Concursos na televisão são tradicionalmente julgados por um corpo de jurados, que se divide em dois grupos bem específicos: primeiro, o de pessoas convidadas, como a atriz Helena Mastroni, a Shurumita de Caminho das Índias, que acham tudo lindo, dão dez para todos os competidores e assim não interferem em nada na votação; enqunato o segundo grupo é o de jurados especializados, que tem a sua apoteose naquela gente entojada que julgava os famosos na Dança do Faustão, com critérios bastante claros: “Olha, Fausto, o casal foi muito bem, mas eu senti uma certa falta de vibração, sabe? Achei que faltou mais atitude e disponibilidade na hora do giro de costas”.

O que eu ainda queria ver: um desses jurados convidados tocar o terror numa votação, dar dez para um ator amigo dele e zerar todos os outros.


3. Artistas internacionais completamente deslocados
Quando um cantor ou cantora estrangeiros vem fazer turnê no Brasil, acabam arranjando uma procissão nos programas de auditório, onde o cara dubla duas músicas, ouve a tradutora na hora das perguntas e responde que o povo brasileiro é muito receptivo. Se artistas daqui já não tem muito o que dizer, imaginem um cara de fora. A coisa rola ladeira abaixo de vez mesmo quando descobrem um ancestral do famoso que tinha uma ligação com Brasil, e aí botam o indivíduo para arranhar um português que, para ele, é só um espanhol esquisito.

O que eu ainda queria ver: nesse quesito, eu já tive meu desejo atendido. Sempre quis ver um artista internacional se esforçando para se constranger mais ainda em rede nacional, até que o Van Damme realizou meu sonho no Domingo Legal.


2. Competições entre homens e mulheres
No manual do programa de auditório, consta: quando for fazer uma gincana no palco, deve-se opor homens e mulheres, independente do que for a brincadeira. Perguntas sobre sexo: homens x mulheres; conhecimentos musicais: homens x mulheres; cabine que enche de água e faz sua bunda num biquíni ficar ainda maior: homens x mulheres. Eu imaginei uma explicação sociológica para isso, e dizer que os programas de auditório apenas reproduzem a dicotomia histórica ocidental, mas daí pensei melhor e conclui que, no fundo no fundo da questão, eu não ia querer ver dois homens brigando por dez sabonetes numa banheira, então que seja assim.

(Okay, acho que exagerei no exemplo)

O que eu ainda queria ver: queria ver a platéia do Domingo Legal gritar “É as mulheres! Oba! É as mulheres! Oba” na frente de um professor conservador de português.


1. Gritos de “Ele merece! Ele merece!!”

Sempre que alguém sofrido receber ajuda de um programa – independente do que for, desde uma casa nova até um ano de produtos Rugol para pele – o auditório vai puxar o coro do “Ele merece! Ele merece!”, sem jamais saber, afinal de contas, se o sujeito merece mesmo ou não. Tudo bem, ele pode ter perdido tudo na enchente, mas quem me garante que ele não batia na mulher, maltratava os filhos, vivia de fogo e arrancava coro de coelhinhos brancos no quintal? O auditório não pensa nessas coisas.

O que eu ainda queria ver: uma rebelião no meio da platéia, com uma mulher gritando “merece nada, ele é um filho da p*, deve para todo mundo lá na comunidade!’. E aí tomarem o prêmio de volta.

5 comentários:

Daniela disse...

Esse do Van Damme eh inesquecivel!!!

Priscila disse...

putz... esse Tiririca baixou o nível da matéria...

Agora, quanto aos jurados do programa do Faustão... seu sonho foi realizado pelo Casseta Marcelo Madureira... ele deu 5 pra todo mundo, deu 10 pra Debora Secco, pq ela é gostosa e disse que não sabia qual nota dar pra Susana Vieira, pq a menor que tinha era 5 e por ele seria uma nota negativa...

ela deve ter lançado praga em todos os cassetas... curioso... o Bussunda morreu bem depois disso...
será???

Arthur Malaspina disse...

Essa do Madureira eu não vi... que pena...

Mas essas suas listas tão demias Vini!!

Vamos lá:

"Ele Merece! Ele Merece!!"

Bortoloti disse...

muito bom!
parabéns pelos textos!

Cristine disse...

Nossa, todos os itens são bons e verdadeiros. Mas ri muito com o do Ele merece! ele merece!! hahaha, é verdade, como elas sabem né? haha. muito bom!