À deriva

À deriva (2008). Dir: Heitor Dhália. Com Vincent Cassel, Déborah Block, Laura Neiva, Camille Bell. 97min.

Para que um filme seja difícil, ele não precisa, necessariamente, ser inacessível. Já perdi as contas sobre quantos filmes eu ouvi dizer que eram complexos e densos mas que eu mesmo não consegui entender nada de muito profundo. À deriva, de Heitor Dhália (mesmo diretor do Cheiro do Ralo), é um filme difícil – mas que com um pouquinho de sensibilidade aparece por inteiro, e então as coisas ficam realmente boas.

Na história, Filipa, menina de 14 anos (papel de estréia de Laura Neiva, que vai muito bem), está passando as férias com seus pais e irmãos na praia, para que o pai consiga escrever um novo romance. Lá, ela descobre que o pai tem uma amante, enquanto o casamento desmorona por causa do alcoolismo da mãe.


Felizmente, À deriva conta com diversos momentos em que a representação por trás das cenas diz tudo o que precisamos saber, como o ambiente da casa da amante e os movimentos de câmera na casa da família. Trata-se naturalmente uma espécie de “romance de formação” filmado, com a passagem de Filipa do estágio de menina para mulher, mas o mais bonito disso é que ele não se resume às suas experiências sexuais, mas também sobre o peso das responsabilidades que vão aparecendo - a ambientação, aliás, é perfeita, não só por explorar a questão do desenvolvimento do corpo (Neiva passa quase o filme todo de biquini, como qualquer criança faria), mas também por contar uma história na época exata (meios dos anos 80) em que ele seria mais verossímil. Quando a reviravolta final acontece, nós nos sentimos tão à deriva quanto Filipa, perdida num lugar infinitamente maior do que ela.

De uma riqueza de encher os olhos, À deriva é um dos melhores filmes do ano.

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