Crácicos do Cinema #1 - Plano Nove do Espaço Sideral

Plan nine from outer space (1959). Dir: Ed Wood. Com Bela Lugosi, Vampira, Dudler Manlove. 79min.

É impossível assistir a Plano Nove do Espaço Sideral sem expectativa, quando esse é considerado o pior filme da história. Tive medo de me desapontar e não encontrar a tal qualidade sofrível, mas respirei aliviado ao final: Plano Nove é realmente um filme horroroso – e divertido por causa disso.

Para resumir a história: um grupo de extra-terrestres, todos iguais aos seres humanos, mas super-avançados, decide por em ação o plano de número nove, que consiste em ressuscitar os mortos da Terra para que eles formem um exército da invasão. Os alienígenas estão preocupados com o que os humanos podem fazer quando obtiverem acesso a armas de destruição em massa, o que torna necessária a intervenção para proteger todo o Universo.

Saber a história da produção do filme ajuda a apreciar a sua (falta de) qualidade: Ed Wood, o diretor, havia gravado algumas cenas com o famoso Bela Lugosi em 1956. Acontece que Lugosi morreu e interrompeu o projeto. Mas Wood resolveu, em 1959, aproveitar as imagens que tinha, substituindo Lugosi nas cenas posteriores por um dublê. Como o dublê só tinha a altura e o cabelo preto do ator antigo, a solução foi pedir para que ele cobrisse o rosto com a capa preta do personagem sempre que aparecesse.


Essa solução gaiata é responsável por todos os erros de continuidade do filme, que consegue alternar cenas de dia (com Lugosi) e de noite (com o dublê) uma seguida da outra. Além disso, todos os cenários têm apenas três paredes e são filmados de frente, como se fosse uma série de TV. O design, aliás, é um show a parte de amadorismo: a nave dos extraterrestres que pousa na terra parece um quartinho de cortiço, enquanto a nave superior tem cortinas por todos os lados (reparando bem, trata-se da mesma nave).

O roteiro é um achado de pérolas: logo de cara, somos apresentados a Criswell, uma espécie de narrador da história, que afirma “eventos futuros como esse irão afetar nossas vidas no futuro”. O plano dos Ets consiste em re-acordar os mortos com “eletrodos que atingem as glândulas pituitárias”, sendo que a grande invasão consegue recrutar três (três!) mortos, que só sabem andar devagar olhando para cima. Enquanto isso, o general que ataca as naves espaciais defende a medida dizendo que elas haviam atacado primeiro “pequenas cidades, onde moravam pessoas”. Para dar a pá de cal, os Ets falam sobre a terrível arma solobonite, que é capaz de explodir as “partículas que formam a luz do sol” (e eles explicam isso duas vezes!).

Os efeitos especiais são risíveis: os discos voadores são nitidamente controlados por fios e pendurados à frente de um quadro estático, cruzando a tela com o barulho de uma ventania. Os combates alternam cenas de filmes promocionais do exército americano, um general num cenário branco e fogos de artifício, sem contar a obsessão de Ed Wood por quadros cheios de neblina. Mas que fique claro que isso é apenas um charme do filme, que seria ruim do mesmo jeito com os efeitos de ponta hoje.

Ed Wood estava mesmo empenhado em fazer um filme sério – basta vez como ele se preocupa com pequenos elementos de coerência de vez em quando (os Ets se lembram de ligar um “tradutor universal” para conversar com os humanos, apesar de todos falarem a mesma língua). É de se lamentar, assim, que nós jamais vamos conseguir assistir Plano Nove do Espaço Sideral com a mesma seriedade com que foi feito – porque isso deixaria tudo ainda mais engraçado.

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