As palmas do auditório

Quem quiser, basta pedir a Record ou ao Sbt, que estão dando para qualquer um que pareça capaz de dar audiência para eles. As mudanças de casa de Gugu, Eliana, Roberto Justus e o diabo (que é um personagem ativo em alguns programas da Record) mexeram com a televisão esse mês, mas eu duvido muito que seja para melhor.


A Tv ainda não percebeu que, se não se mexer, vai se afundar cada dia mais por causa das novas mídias (leia-se Internet) e, ao invés de buscar inovação, troca cartas entre si para um jogo velho e gasto. Toda essa gente vai ocupar seu espaço na programação com os tradicionais programas de auditório, febre do anos 90 que claramente está agonizando para quem quiser ver.

Basta pensar que esse é um formato, por natureza, estranho: são quatro horas de um mesmo programa, comandado por alguém de maior ou menor carisma, que está lá para apresentar quadros, que podem ser a Wanessa Camargo fazendo playback, ou uma pegadinha ultrapassada, ou um cachorro amestrado, ou um “acerte quem é a mulher entre os cinco transformistas”, ou um piadista que acha que humor é contar piada imitando o Pato Donald, etc etc. Nós precisamos mesmo desse tipo de entretenimento?

A televisão, nos anos 90, era pior do que hoje, pelo menos quando se pensa no grotesco: procure um vídeo da “Banheira do Gugu” no youtube e depois se lembre que aquilo passava todo domingo, a tarde. Com toda a mobilização social contra a baixaria (de quem, oras, assistia a baixaria), produtores e apresentadores recuaram, e a televisão hoje é ruim pela mesmice e falta de sal, precisando importar quadros estrangeiros para compor seus programas (o que acontecia também na década de 90, mas sem acesso a informação, qualquer um juraria que as “Olimpíadas do Faustão” eram uma idéia dele e não um formato japonês maluco).

Eu sempre disse aqui que acho Silvio Santos um gênio, mas a presença dele com um programa de quatro horas no domingo é um símbolo de decadência: foi necessário apelar para uma das figuras que estabeleceu o formato de auditório no Brasil (ao lado de Chacrinha) para dar alguma sobrevida a ele, mas o resultado é constrangedor: na minha cabeça, aquele programa enorme de SS me parece um dia em que o funcionário do caixa fica doente e o patrão precisa ir lá quebrar o galho.

Quando a Globo resolveu mudar a transmissão do futebol de sábado para domingo, no final dos anos 90, para combater o Gugu (antes que ele mesmo se combatesse, fingindo que tinha uns trutas no PCC), fez um favor enorme em dar um tiro no programa de auditório, mas assim como o Faustão, ele permanece lá, agonizando com índices que nem de longe são como os de dez anos atrás. Acho que ainda existe uma visão muito romântica da programação de domingo, em que o Gugu, ou Faustão ou até mesmo SS ficavam na tela da tv, ao fundo, enquanto a família se juntava para uma macarronada com frango e coca-cola, o que eleva o programa de auditório ao patamar de instituição nacional.

No fim das contas, a agitação que tomou conta da tv hoje tem o mesmo efeito que limpar a estante de uma casa abandonada: em duas semanas, a poeira já vai ter coberto tudo outra vez.

Um comentário:

André Modesto disse...

Muito bom. Sempre achei que olhar nuvens ou ver os bem-te-vis pousando nos fios do poste eram coisas mais interessantes que o Gugu. Seus trutas do PCC foram o cúmulo da apelação e falta de bom senso. Ainda assim, ele consegue pousar de bom moço...

E olha que somo Homo Sapiens, hein!