Watchmen

Eu não gosto de quadrinhos de super-herói. Gosto dos filmes, gosto dos personagens, gosto até de ouvir falar de uma história ou outra, mas essa é uma mídia com a qual eu simplesmente nunca me dei bem. Acho que os excessos gráficos, tramas forçadas, personagens como o “Besouro-Escarlate” ou a “Mulher-Teclado”, além de diálogos artificiais me afastavam da leitura.

Então, por uma dessas coisas que a internet proporciona para gente com uma conexão alta, eu pude baixar todas as doze edições de Watchmen, minissérie escrita pelo pancada Alan Moore no final da década de 80.E, sem gostar de quadrinhos, eu fui ficar fascinado justo por esse.

Em linhas gerais, Watchmen traz os super-heróis para o mundo real, em que eles combatem o crime e auxiliam o governo em guerras, com o diferencial de que, salvo Dr. Manhattan, um ser azulado que consegue fazer qualquer coisa (é sério!), são apenas pessoas normais com máscaras ou uniformes ridículos. Quando um destes caras – o Comediante – é assassinado, Rorschach, um herói atormentado, paranóico e maníaco, inicia uma investigação sobre um assassino de heróis mascarados.

Já deve ter se escrito de tudo sobre Watchmen, e a minha contribuição vem como um não-leitor de quadrinhos: acho que o primeiro grande trunfo da obra é explorar ao máximo o que a mídia dos quadrinhos podia oferecer. Sem frescuras, Moore e Dave Gibson (o desenhista), dividem a página em nove quadros, colocam imagens e um pouco de texto em cada um e, de repente, você está acompanhando duas tramas ao mesmo tempo! É a simultaneidade em papel, com cada coluna exibindo uma narrativa diferente e, ainda mais fantástico, que ecoam uma na outra! Por vários momentos, a trama segue em paralelo com uma história de pirata, chamada “Contos do Navio Negreiro” que, com um olhar mais atento, se mostra uma metáfora do pânico que vai tomando conta das pessoas perante a guerra entre EUA e União Soviética. Há uma quantidade enorme de ligações entre as imagens e, definitivamente, uma única leitura não é capaz de apreender tudo o que a história oferece neste sentido. A edição em que Dr. Manhattan relembra toda a sua trajetória, com saltos temporais em cada quadro, é uma das coisas mais complexas e inteligentes que eu já li.

E se estruturalmente Watchmen já é de brilhar os olhos, a grande sacada é a narrativa principal: Watchmen pega o clichê de super-herói pela mão e faz dele o que quer. A história, contada, não representa nenhuma inovação: surge o assassinato, a investigação, os personagens se envolve, se descobre o plano do “vilão” e há um confronto final; a mágica está no que forma cada situação dessas. Rorschach não poupa nada na sua investigação, enquanto a figura do Dr. Manhattan é de chorar de tão bem construída e complicada. Por fim, a revelação final e o “plano” do “bandido” atingem a glória da ambigüidade entre o “certo” e o “errado”.

Pesado, instigante, cansativo e inteligente de uma forma avassaladora, Watchmen era, afinal de contas, tudo o que diziam dela para mim. Continuo sem gostar de quadrinhos – mas agora dou todo meu respeito a obra que estraçalhou com todos eles.



Um comentário:

Esp. disse...

Transmitiu tudo o que eu pensava e não conseguia por em palavras (Inclusive o "não gostar de quadrinhos").

Realmente, Watchmen envolve de uma forma que quebra alguns preconceitos. A única coisa que essa HQ exige é que não se tenha preguiça de pensar.