1984

Devia existir alguma espécie de maldição que me impedia de ler 1984 (1948): os livros na biblioteca estavam desaparecidos, nenhum amigo possuía e o preço da edição mais recente (porque, naturalmente, nenhum sebo também tinha o livro) girava na casa dos 60 mangos. Então o Submarino fez uma promoção boa e o Natal chegou – então eu pude entender porque cobram tudo isso por ele.

George Orwell (1903 – 1950) tem um estilo direto de escrita, que às vezes é difícil, mas somente por uma questão de necessidade. Mais do que uma trama bem conduzida, a importância toda de 1984 está em sua temática de alerta sobre o totalitarismo dos governos e como nós, pobres consumidores de informações repassadas pelas instâncias superiores, estamos supostos a sermos enganados e manobrados conforme o grupo dominante desejar. 1984 é também sobre o poder da palavra sobre as pessoas.

O mundo não se segmentou nas grandes potências que Orwell esboçou no livro, mas a atmosfera assustadora de dominação realizada de um jeito maleficamente bem feito, que não deixa rastros nem alternativas de fuga. Num momento realmente inspirado, um personagem faz um longo discurso sobre a natureza real do passado, uma composição abstrata construída a partir de informações que adquirimos – e a partir do momento em que essas informações são controladas, nosso passado também é: e daí para a dominação do presente e o futuro, é um pulo. 1984 é um dos romances mais importantes do século XX, justamente por predizer o que na certa irá acontecer pelos próximos séculos. Assustador de um modo genial.

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