Harry Potter e as Relíquias da Morte

No fim das contas, acho que o grande trunfo de J. K. Rowling não era a sua capacidade de surpreender com a trama de Harry Potter, mas nos fazer crer que ela poderia surpreender – como se nós estivéssemos numa montanha russa, seguros no carrinho e nos trilhos, mas com os olhos fechados tudo parecesse um carro desgovernado pronto para nos matar. Obrigado, Rowling, por nos entreter por estes últimos dez anos.

Harry Potter e as Relíquias da Morte
é bom justamente por isso: mais do que mega revelações, há todo um clima de opressão que sustenta o livro, nos fazendo crer que tudo é possível. Harry, Rony e Hermione passam toda a história sufocados e perdidos, sem ninguém que possa ajudá-los – e assim, toda a “enrolação” das tramas, que as vezes servia só para encher páginas, tem sentido pela primeira vez: o trio está realmente sem saber o que fazer, e a agonia deles vem até nós por páginas em que nada acontece.
A maneira como Rowling reutiliza vários elementos dos livros anteriores revela pelo menos duas coisas muito boas: a primeira de que ela sempre soube o que estava fazendo, e a segunda de que o último livro não seria um achado, mas uma conseqüência dos seis anteriores: o único ponto novo na trama acaba se revelando mesmo é uma distração. É preciso dizer também que este Harry é sem dúvida o mais apegado a realidade de todos: alguns personagens simplesmente somem na história, mas isto se explica muito bem pela ameaça que paira na cabeça de todos.

No fim das contas, Relíquias da Morte não é surpreendente – já que a maioria das teorias dos fãs estavam mesmo certas. Rowling mata um personagem aqui e ali, mas naturalmente prevalece um certo “dó” com relação a alguns deles, o que não é o mais importante, porque melhor do que a matança é o clima da matança no livro. Rowling fez um livro para prender nossa respiração e soltar depois, aliviados – um tipo descompromissado de catarse, se isso não é exagerar.

Depois de dez anos então, talvez se discuta a importância de Harry Potter na criação do gosto da leitura em muita gente – e daí vão compará-lo à Alice de Carroll, ao Peter Pan de Barrel, ao Sítio do Pica-pau Amarelo de Lobato etc. Independente da qualidade, o que se espera é que quem nasceu com Harry na leitura vá adiante – e que o menino que sobreviveu mantenha seu lugar de direito na estante de todo mundo. E daí mais uma vez, obrigado, Rowling, por nos entreter por estes últimos dez anos.

Um comentário:

Bárbara disse...

É... Temos muito a agradecer a Rowling, mesmo. Conseguiu criar o hábito da leitura em muita gente. E, com certeza, a tendência é que esse hábito continue.

Gostei mesmo da crítica!

Um abraço!